terça-feira, 29 de setembro de 2009

APENAS UMA PASSAGEM


Sábado fui com Marinho ao Velório do Cícero Berto(na foto, de bermuda, ladeado pelo Guelfo Poltronieri) e ao retornar pra casa fiz uma reflexão sobre essa nossa breve passagem na terra.


- De que vale a pena tanta correria pelo vil metal se quanto fizermos o caminho da volta estaremos simplesmente da mesma forma que chegamos ?


- Qual caminho tenho que trilhar para quando chegar a minha hora de cruzar o portal da eternidade agradecer a Deus e entender que valeu a pena?


- Quais verdadeiros valores que aproximam de Deus ?


Todo esse questionamento serve apenas para reforçar o entendimento, conforme consta no certificado de presença da 5 de Agosto, que diz " Quem não nasceu pra servir não serve pra viver".


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

AINDA SOBRE O 18 ANDARES

Ainda sobre o 18 andares me informa o Bartoline.............

Prezado Mário,


Vou tentar lhe repassar mais dados sobre este prédio. Eu nasci em dezembro de 1947, na casa de nº 102, da rua Peregrino de Carvalho, em frente à então Biblioteca Pública do Estado (onde morei até 1959), imóvel esse que na década de 1960 foi demolido para dar lugar à antiga Farmácia do IPEP. A casa de nº 102, tinha como vizinha, à esquerda, o Palacete da família do Dr. Nelson Carreira, que por volta de 1956 foi alugado, ali sendo instalado o Imperador Hotel, que veio a servir de hospedagem para o Dr. Ulisses Bularmaqui, engenheiro encarregado daquela construção. Essa pessoa, de saudosa memória, por conta da vizinhança e da sua afinidade com o movimento musical, logo ficou muito amiga de minha família, de forma que, menino levado e curioso, assisti, de forma privilegiada, os primeiros passos da obra, desde a demolição do antigo imóvel que serviu de sede da Delegacia de Trânsito de João Pessoa (que em 1954 mudou-se para o Castelinho localizado na Praça Bela Vista, no início de Cruz das Artes, imóvel ainda hoje existente), bem como da escola de Música "Antenor Navarro", que era dirigida por minha falecida mãe, Luzia Simões Bartolini. O terreno e a construção ali existente pertenciam ao Estado, tendo sido repassado ao IAPB no Governo de José américo de Almeida, com a contrapartida de que todo pavimento térreo, da Av. General Osório (correspondente ao quarto andar, contado da Praça Aristides Lobo), seria destinado àquela Escola, coisa que no futuro não veio a se concretizar, por conta dos meandros das gestões públicas, motivada, principalmente, pela unificação dos antigos Institutos de Previdência, promovida pelo governo militar, que decretou a extinção do IAPB, dentre vários outros Institutos de Previdência. E, foi justamente por isso, que os apartamentos só vieram a ser entregues aos seus proprietários no ano de 1967, ficando totalmente esquecida a contrapartida objeto do repasse do Governo da Paraíba ao finado IAPB. Pelo projeto dessa obra, se não me falha a memória, aquele Instituto ficaria com os três primeiros andares das construção, vez que a entrada principal do imóvel seria justamente na sua face oeste, voltada para a acima referida Praça Aristides Lobo (lembre-se que ali existe uma espécie de "hall", o qual deduzo que nunca foi utilizado). Com relação se o prédio foi ou não projetado para ter garagem, não afirmo com certeza, porém acho que não, pois naquela época, ainda se desconhecia qualquer problema com relação ao trânsito, já que pouquíssimas pessoas eram possuidoras de carro, em nossa cidade. Por conhecer bem a estrutura do "18 andares" (pelo menos no seu início), tendo diversos amigos que ali já residiram, concordo com você quando afirma a respeito do vislumbre da sua cobertura, considerando ainda que a família do zelador do prédio tenha sido a mais aquinhoada da obra, já que ali foi edificado um apartamento destinado a sua moradia, isso sem falar na amplitude do pavimento vazado, localizado, se não me engano, no quinto andar.Além dos problemas referidos por você, três coisas também devem ter contribuidos para afuguentar os moradores. A primeira, está no fato de que os elevadores ali instalados (dois para cada bloco), sempre foram problemáticos, servindo concomitantemente a dois andares isoladamente, cujo acesso se faz através de dois vãos de escada, que ao que me parece nem possui corrimão; a segunda, eram os constantes apagões, deixando os moradores e usuários não só presos nos elevadores, como dificultando o acesso pelas escadas, já que o primeiro pavimento residencial corresponde ao sexto andar da Av. General Osório; a terceira, se consistui mesmo na falta de garagem. Por fim, apesar de todos esses problemas, o Edifício Presidente João Pessoa, o famoso "18 Andares" ainda é um marco em nossa cidade. E, para bem se compreender os problemas nele existentes, deve-se levar em consideração que esta edificação foi concebida há meio século atrás, cujos conceitos de engenharia, funcionalidade, moradia, bem estar, urbanização, dentre outros, eram bem mais diferenciados dos concebidos nos padrões de hoje. Esperando haver dado um pequeno contributo para a história desse grande marco de nossa linda cidade, envio-lhe o meu fraternal abraço. Cordialmente,
Edgard Bartolini Filho

sábado, 19 de setembro de 2009

O Dezoito Andares


18 Andares: o mais antigo condomínio da cidade





Ninguém saberá responder aonde fica o Edifício Presidente João Pessoa. Nem mesmo o mais antigo morador da Cidade. Mas o Dezoito Andares... A grande verdade é que todo mundo concorda num ponto: É o prédio mais charmoso da cidade ou “o condomínio mais antigo da capital”, como, orgulhosamente, faz questão de colocar no papel timbrado o síndico Paulo Sérgio, cidadão que lá chegou ainda adolescente. Outra unanimidade: É uma das coberturas mais deslumbrantes do litoral, com uma visão de 360º que deixa de queixo caído até os que já conheceram a Torre Eiffel.


Os historiadores dirão que é um endereço nobre: Rua Nova, atual General Osório, esquina com a Ladeira dos Pedroza, que também já foi Ladeira da Carioca, até se juntar ao Beco da Misericórdia para receber a nova denominação: Peregrino de Carvalho.


Acho que foi exatamente este ponto da Capital que encantou o carioca Ulisses Burlamaqui, um dos integrantes do movimento da moderna arquitetura brasileira, quando, contratado pelo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários-IAPB, em 1957, sobrevoou a cidade para definir o local da “primeira experiência de habitação multifamiliar em altura da cidade de João Pessoa”.


Gostaria de ter conhecido o Dr. Burlamaqui, não pelo fato de alguns dizerem que ele era um “típico playboy carioca dos anos dourados; homem bonito, culto, extremamente elegante”. Gostaria de estar ao lado dele, no teco-teco fretado ao Aeroclube, para ver o que ele sentiu no momento da escolha deste lugar.


Quem mora no Dezoito Andares logo fica convencido do seguinte: O arquiteto construiu camarotes para que as pessoas, ocupando ambientes confortáveis e ventilados, pudessem contemplar tranquilamente uma bela paisagem. Paisagem que, como um caleidoscópio, nunca cansa, nunca cai em monotonia, porque muda de acordo com as variações do tempo e da luz. Já na entrada do apartamento, ele colocou uma parede fora de esquadro para que ao abrir a porta o visitante possa sentir, em panorâmica, o forte impacto do visual extraordinário.


Dr. Ulisses Burlamaqui foi mais fundo na sua viagem: Empilhou 48 apartamentos, vazados na frente e nos fundos (o vazamento é total na frente), solução que traz para dentro dos imóveis a paisagem exterior, formando imensos painéis, o que deixa os moradores com a sensação de que vivem pisando nas nuvens. Avançou mais em seu sonho: Fez as varandas com as mesmas dimensões, quase 20 metros quadrados, independentemente do tamanho do apartamento. A paisagem foi, digamos, democratizada, até para que todos pudessem curtir igualmente o pôr-do-sol e a lua cheia.


Não jogou a dependência de empregada em uma sobra de espaço qualquer. Traçou cuidadosamente os aposentos da empregada, que são amplos, agradáveis, com total e absoluta privacidade e acesso exclusivo. Há outras bossas” no prédio, como escadarias largas, com pouquíssima inclinação e degraus espaçosos, onde as pessoas podem subir e descer, conversando ou conduzindo volumes, tranquilamente. A área de lazer é um enorme tapete entre a plataforma e o setor residencial. O elevador serve simultaneamente a dois pavimentos, reduzindo o consumo de energia, o desgaste do próprio equipamento e fazendo com que as pessoas, mesmo as mais velhas, possam se exercitar sem grande esforço físico. No entanto, uma dessas bossas” foi para mim amor à primeira vista: O longo corredor entre os elevadores dos dois blocos recebe uma luminosidade natural que o transforma numa réplica do “túnel do tempo” do Congresso Nacional. Fantástico!


O que permanece uma incógnita é o destino da garagem, mistério que até hoje não foi desvendado. Sabe-se apenas que existe ampla área ociosa, dando para a Praça Aristides Lobo, sobre a qual o condomínio não tem mais nenhuma ingerência e, tanto o Patrimônio da União como a Prefeitura, ainda não chegaram a um acordo sobre a sua utilização. Enquanto nada é resolvido, a “terra de ninguém” serve de pousada para vagabundos e moradores de rua, causando transtornos de toda espécie à comunidade ali residente.


Torci o nariz quando me ofereceram um apartamento nesse prédio de tantas histórias, alegres e trágicas, como tudo na vida. Enfrentei o samba de uma nota só dos agentes do mercado imobiliário: “Seu” Petrônio vá para a orla. O centro acabou-se, virou um lixão.” Acontece que vim conhecer a nova morada ao pôr-do-sol. Não resisti. A amiga Vitória Lima não exagerou ao afirmar que eu não comprei um apartamento, mas uma paisagem.


Sem exagero, posso dizer que sonho acordado. Deitado em minha cama vejo o Sanhauá – rio triste, que parece estar sempre indo à procura de alguém distante... O contraponto é feito pelas garças. Numerosas, se exibem cheias de juventude, como as meninas do antigo Colégio das Neves. Vagueiam em bandos ou solitárias. São lençóis brancos, esvoaçantes, sobre o casario e o manguezal. Às vezes penso que são anjos enviados por Deus para limpar, todos os dias, a sujeira do esquecido Varadouro, numa espécie de protesto pacífico contra a omissão dos homens.


Menino da Rua da República, Rua da Areia e do velho Roggers, com alguns quilômetros rodados nesses quase 60 anos de vida, penso que escolhi o lugar certo para “amarrar o burro na sombra”. Aqui, me refugio nas minhas doces lembranças e me sinto protegido pelos meus mortos, figuras que tinham a maior intimidade com essas ruas, becos e ladeiras.


PS: No final de 2006, começo de 2007, morei quase 6 meses no 18 Andares. Não resisti por muito tempo. As poluições sonora e do ar, no centro da Capital, me fizeram vender o imóvel e me mudar para a orla marítima.




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

GRATIDÃO A DEUS


Quando a sombra da tristeza cobrir seus sonhos de ventura;

Quando você quiser chorar diante da taça da amargura;

Quando a dor bater à porta ferindo bem fundo o coração;

Quando a esperança é morta e a vida amarga ilusão;




Olhe para trás, veja quanta dor, súplicas de paz clamando amor!

Olhos sempre em trevas, mãos mendigam pão,

Bocas que não falam e risos sem razão...

Deixe de chorar, volte a sorrir, você é tão feliz, volte a cantar!

Faça uma prece, seja grato a Deus!

Ele sempre abençoa os filhos seus...




Música:Grupo Acorde

Compositor: João Cabete

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O TEMPO NÃO PÁRA


Ontem passamos o dia todo em casa e Simone me chamou para irmos na casa dos meus pais pois já fazia quase um mês que estavamos ausentes daquele que é sempre um dos melhores momentos das nossas vidas. Ao chegarmos somos sempre bem recebidos por todos, onde Babinho e Gusta sempre fazem questão daquela conversa bacana e sadia. Dona Augusta sempre tem uma comida pronta e diga-se de passagem com um tempero de primeira. Seu Mário na sua rede a dormir mas quando menos esperamos ele se levanta e vem falar de assuntos diversos, passando sua experiencia de vida que muito tem nos ajudado. Gusta pegou Gabriela pelo braço e foi ao parque, que logo entrou na cama elástica. Depois sobrou para mim que fui pro tiro ao alvo com Marinho e em seguida ao cavalinho, novamente com Gabriela. Voltamos pra casa e comecei a me lembrar da minha infancia. Lembrei da Festa do Rosário que ficava na frente da Igreja do mesmo nome, em jaguaribe, na Av. Primeiro de Maio, nas proximidades de onde hoje é o Centro Administrativo. Tinha muitas canoas e o parquinho era movido na manivela. Tinha a maçã do amor, pipoca e o jogo de argolas. Em Cruz das Armas, iamos a Festa das Hortencias, próximo ao Clube Internacional. O interessante era o leilão que se fazia de um simples galeto assado que chegava a valer dez vezes mais que o normal. A preço de hoje o ganhador pagava quase R$100,00 só pra ter o prazer de dizer que tinha dado o maior lance e que ao mesmo tempo teria ajudado a Igreja de São José. Contudo, a melhor e maior de todas as festas era a Das Neves. Essa era de se esperar o ano todo. Usava-se a melhor roupa ! Acredito que todo mundo da minha geração, e olha que ainda sou o garotão, passou pelos corredores nas proximidades do colégio Águia, Pio XII e Nosssa Senhora das Neves. Naquele época éra bom demais. Não existia violencia e se tinha a certeza da volta para casa. Lembro como se hoje fosse que quando a nossa João Pessoa completou 400 anos a atração maior foi a cantora/dançarina Gretchen . O palco estava na frente da Catedral e não cabia mais uma viva alma. De repente lá vem uma kombi furando a multidão e um camarada que estava ao meu lado quase rasgou a garganta gritando... - "Lá vem a Grete. Lá vem a grete. Lá vem a grete.". Foi um rugi-rugi daqueles e por pouco a danada não conseguia subir no palco. Ao fim, a confusão pra ela sair foi ainda maior. Tinha uma passarela por sobre a entrada do viaduro Damásio Franca e que permitia o passeio até o Palácio da Redenção. Não dou de conta de lembrar quantas vezes se fazia o arrodeio começando no Cinema Municipal, na Visconde de Pelotas, passando pelo Pio XII e seguindo na Gal. Osório chegava-se novamente até a Praça João Pessoa. Me vem na memória o malabarismo que se tinha que fazer para driblar a multidão. Infelizmente a ação deletéria do tempo tudo apaga e transforma. Hoje, para levar Marinho e Gabriela no parque que fica na frente da casa de Babinho e Gusta temos que ficar atentos. Formamos um verdadeiro exército de olheiros. Nos oferecemos a desculpa de tomar um ventinho na calçada mas na realidade, eu, Babinho, Gusta,Simone e Magno ficamos mesmo e na atenção necessária pois a coisa não tá pra brincadeira. Sem contar que nos dias que Matheus, Mirela e Júnior estão presentes, soma-se aos soldados espiões o meu irmão Márcio e minha cunhada Socorro, a grande autoridade do principado da Penha.

domingo, 6 de setembro de 2009

"Estou preparado para a morte"


"Um dia desses me disseram que, ao morrer, iria encontrar meu pai, falecido há mais de cinquenta anos. Aquilo me emocionou profundamente. Se for para me encontrar com mamãe e papai, quero morrer agora".






Na semana passada, o vice-presidente da República, José Alencar, de 77 anos, deu início a mais uma batalha contra o câncer. É o 11º tratamento ao qual ele se submete na tentativa de controlar o sarcoma, um câncer agressivo e recidivo, diagnosticado pela primeira vez em 2006. A abordagem de agora consiste em quatro sessões semanais de quimioterapia. A químio foi decidida pelos médicos uma vez que o câncer de Alencar, com vários nódulos na região do abdômen, não respondeu a uma medicação ainda em fase experimental, em testes no hospital MD Anderson, centro de excelência em pesquisas oncológicas, nos Estados Unidos. Desde o início desse tratamento, em maio, o sarcoma cresceu cerca de 30%. A químio é uma tentativa de conter o alastramento do tumor. Visivelmente abatido, quase 10 quilos mais magro, Alencar recebeu a repórter Adriana Dias Lopes na sala 215 do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, enquanto passava pela primeira sessão de químio. O encontro durou cerca de uma hora. Nos primeiros dez minutos, o vice-presidente comeu dois hambúrgueres e tomou um copo de leite. Alencar chorou duas vezes. Ao falar de seus pais e da humildade, a virtude que, segundo ele, a doença lhe ensinou.


Como o senhor está se sentindo ? Está tudo ótimo: pressão, temperatura, coração e memória. Tenho apetite, inclusive – só não como torresmo porque não me servem. O meu problema é o tumor. Tenho consciência de que o quadro é, no mínimo, dificílimo – para não dizer impossível, sob o ponto de vista médico. Mas, como para Deus nada é impossível, estou entregue em Suas mãos.


Desde quando o senhor sabe que, do ponto de vista médico, sua doença é incurável ? Os médicos chegaram a essa conclusão há uns dois anos e logo me contaram. E não poderia ser diferente, pois sempre pedi para estar plenamente informado. A informação me tranquiliza. Ela me dá armas para lutar. Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente quando me refiro à doença em público – ninguém tem nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o câncer do vice-presidente, sim. Um homem público com cargo eletivo não se pertence.


O senhor costuma usar o futebol como metáfora para explicar a sua luta contra a doença. Certa vez, disse que estava ganhando de 1 a 0. De outra, que estava empatado. E, agora, qual é o placar ? Olha, depois de todas as cirurgias pelas quais passei nos últimos anos, agora me sinto debilitado para viver o momento mais prazeroso de uma partida: vibrar quando faço um gol. Não tenho mais forças para subir no alambrado e festejar.


Como a doença alterou a sua rotina ? Mineiro costuma avaliar uma determinada situação dizendo que "o trem está bom ou ruim". O trem está ficando feio para o meu lado. Minha vida começou a mudar nos últimos meses. Ando cansado. O tratamento que eu fiz nos Estados Unidos me deu essa canseira. Ando um pouco e já me canso. Outro fato que mudou drasticamente minha rotina foi a colostomia (desvio do intestino para uma saída aberta na lateral da barriga, onde são colocadas bolsas plásticas), herança da última cirurgia, em julho. Faço o máximo de esforço para trabalhar normalmente. O trabalho me dá a sensação de cumprir com meu dever. Mas, às vezes, preciso de ajuda. Tenho a minha mulher, Mariza, e a Jaciara (enfermeira da Presidência da República) para me auxiliarem com a colostomia. Quando, por algum motivo, elas não podem me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de ser feito é feito e pronto. Sem drama nenhum.


O senhor não passa por momentos de angústia ? Você deveria me perguntar se eu sei o que é angústia. Eu lhe responderia o seguinte: desconheço esse sentimento. Nunca tive isso. Desde pequeno sou assim, e não é a doença que vai mudar isso.


O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão ? A doença me ensinou a ser mais humilde. Especialmente, depois da colostomia. A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça da humildade. E Ele tem sido generoso comigo. Eu precisava disso em minha vida. Sempre fui um atrevido. Se não o fosse, não teria construído o que construí e não teria entrado na política.


É penoso para o senhor praticar a humildade ? Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento. Sou obrigado a me adaptar a uma realidade em que dependo de outras pessoas para executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações. Uma das lições da humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu, como os profissionais de saúde que cuidam de mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto Kalil, Raul Cutait e Miguel Srougi quanto para os enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos que me assistem. Cheguei à conclusão de que o que eu faço profissionalmente tem menos importância do que o que eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito direto sobre o próximo. Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.



Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar para a morte ? Provavelmente, sim. Quando eu era menino, tinha uma professora que repetia a seguinte oração: "Livrai-nos da morte repentina". O que significa isso? Significa que a morte consciente é melhor do que a repentina. Ela nos dá a oportunidade de refletir.


O senhor tem medo da morte ? Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio. Tornei-me uma pessoa muito melhor. Isso não significa que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma plena. Até porque nem o melhor médico do mundo é capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe a Deus, exclusivamente.


O senhor se deu conta da comoção nacional que tem provocado ? Não há fortuna no mundo capaz de retribuir o carinho dos brasileiros. Sou um privilegiado. Você não imagina a quantidade de manifestações afetuosas que tenho recebido. Um dia desses me disseram que, ao morrer, iria encontrar meu pai, falecido há mais de cinquenta anos. Aquilo me emocionou profundamente. Se for para me encontrar com mamãe e papai, quero morrer agora. A esperança de encontrar pessoas queridas é um alento muito grande – e uma grande razão para não ter medo do momento da morte.
O senhor se tornou mais devoto com a doença? Sou de família católica, mas nunca fui de ir à missa. Nem agora faço isso. Quando a coisa aperta, rezo o pai-nosso. Ultimamente, tenho rezado umas duas, três vezes ao dia.
Se recebesse a notícia de que foi curado, o que faria primeiro ? Abraçaria a Mariza e diria: "Muito obrigado por ter cuidado tão bem de mim".

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A Dama De Vermelho


Garçom

Olhe pelo espelho

A dama de vermelho

Que vai se levantar

Note, que até orquestra

Fica toda em festa

Quando ela sai para dançar

Essa dama já me pertenceu

E o culpado fui eu da separação

Hoje, choro de ciúme

Ciúme até do perfume

Que ela deixa no salão.



Garçom, amigo!

Apague a luz da minha mesa

Eu não quero que ela note

Em mim tanta tristeza

Traga mais uma garrafa

Hoje vou embriagar-me

Quero dormir para não ver

Outro homem te abraçar.



Composição: Ado Benatti / Jeca Mineiro