domingo, 28 de novembro de 2010

Paraíba : A porta do sol

João Pessoa é o ponto extremo oriental das américas. Aqui recebemos o sol antes que qualquer outro local, desde a Argentina até o Canada. Venha aproveitar deste meu sublime torrão.

sábado, 13 de novembro de 2010

Composições absurdas



Duas composições, das quais um dia postei os vídeos ( Foi Deus quem fez você e Mulher nova, bonita e carinhosa ) me trazem uma preocupação com a juventude brasileira. Observe a qualidade das letras, ritmo, melodia,etc... Falam em amor, sedução e retratam uma história. Hoje, as músicas são feitas para levar os jovens aos shows, tendo em vista ser este tipo de evento a única forma da ganho das bandas, devido a pirataria que não mais permite lucro com o CD. Este movimento do new forró, ou forró de plástico, que graças a Deus parece ter dias contados, não se preocupa com a dimensão que pode alcançar o que produz.

Dizem:
  • "Beber, cair e levantar"
  • "Dinheiro na mão, calcinha no chão"   
  • "Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!"

Os produtores destas  pérolas do absurdo vão de encontro a busca de uma juventude melhorada para o futuro do nosso País. Não pensam nas campanhas contra a pedofilia, contra as drogas e álcool. Do que adianta o Governo Federal gastar meu rico dinheiro do imposto com campanhas educativas se em apenas duas horas de show se apregoa que o jovem tem que  beber até cair, que se alguém pagar a mulher vai se despir ? Os caras só pensam em ganhar dinheiro e a sociedade é que se dane !

Que saudade  das musicas de qualidade !

Abaixo veja o que pensa o Ariano Suassuna sobre este tema: 


‘Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão.

Diante de uma plateia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhado uma música da Banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de ‘forró’, e Ariano exclamou: ‘Eita que é pior do que eu pensava’. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou.

Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró  Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a  facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

Ariano Suassuna

Foi Deus quem fez voce

Mulher nova, bonita e carinhosa....

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dia de Finados






O finado é um ser humano muito sozinho. Passa o ano inteiro trancado naquela cova escura, sem ar, sem ninguém a quem recorrer para diminuir a sua solidão, quando muito tem a companhia de outros defuntos igualmente solitários, e somente uma vez a cada 365 dias recebe a visita de parentes e amigos. É no dia de finados, um dia como esse de hoje, que os vivos se lembram dos mortos, vão ao cemitério, acendem velas, botam flores, choram alguns minutos, depois ficam ali, impacientes, doidos para acabar a visita e voltarem ao aconchego dos bares, para curar o que chamam de mágoas num copo de cerveja. Aí o defunto retorna à sua solidão, ao seu quarto escuro, à sua cova estreita e quente, aos vermes que lhe comem as entranhas, ao descanso incômodo e eterno do além. 


Até parece que os vivos jamais morrerão. Pelo comportamento deles, julgam-se eternos. Tolos. Amanhã, todo dia, a cada instante, um sai da fila dos vivos para permitir um acréscimo na longa fila dos mortos. E então o que chegou ao hotel dos defuntos vai ver o que é bom pra tosse, vai beber do mesmo remédio, experimentar a mesma solidão, o mesmo quarto estreito, a mesma cova escura e quente.


Deve ser por isso que os defuntos de posses optam pela cremação. Sentem o torar do fogo, mas em poucos minutos viram cinzas e vão enfeitar vales, rios, mares e açudes, transformando-se em pó sem o inconveniente de virarem comida de lombrigas, de ratos, de bichos que habitam o submundo da terra. Esse tal de crematório deveria ser comprado pelo SUS e disponibilizado a todo mundo. Acabaria a superlotação dos cemitérios, possibilitaria ao defunto um jeito mais cômodo de enfrentar o pós morte e dava um fim à essa feira de flores e velas que enchem o saco de quem chega aos cemitérios, no dia de finados, para visitar algum familiar defunto. Só haveria uma ruindade nisso tudo: nós não comeríamos mais aqueles jambos lindos que os moços do distrito mecânico colhem no cemitério e nos vendem à cada manhã de safra.


Nesse dia de finados, claro que constato o quanto anda desfalcado o meu time de vivos. Aqui já não mora mais o velho Miguel Lucena, o pai mais paizão que existiu na terra; também se foi dona Emília, minha mãe que não esqueço e que muita falta me faz; não tenho mais os manos Carlinhos e Galego, o primeiro levado pelas mãos assassinas de um criminoso barato e fujão, o segundo, que partiu muito cedo porque era bom demais para viver entre nós, o cunhado Sebasto morto em acidente, além de amigos, incontáveis amigos, cujos nomes não declino para que algum, esquecido na relação dos citados, não fique com mágoa lá na cova estreita do seu cemitério. A todos, tributo a minha saudade que não morre, a minha lembrança sempre viva e o meu até logo, pois sei, com todas as letras, que qualquer dia desses vou ser vizinho deles na solidão dos que morrem.



*Texto do jornalista e blogueiro Tião Lucena / www.http://www.blogdotiaolucena.com.br/